quinta-feira, janeiro 12, 2017

Cavacas e pessoas

Chegaram hoje.
Espero-as abençoadas pelo santo casamenteiro, para uns, ou curandeiro para outros. Se forem portadoras de milagres, ambas as modalidades são aceites.
Até chegarem a Lisboa, poderiam ter servido como paga de alguma promessa e serem lançadas do cimo da capela, em sinal de tributo, culto e veneração. Não seriam estas, mas outras maiores.
Mas isto não é sobre cavacas. É sobre pessoas e sobre a pessoa que mas enviou - o Sr. João Reis.
Tenho por ele, desde há 13 anos, uma grande estima e admiração  e essa passagem comum por uma das maiores empresas de cerâmica portuguesas.
E foi ele, sem que alguma vez o tenha percebido, que me mostrou a importância de conhecermos as pessoas pelo nome, de darmos a atenção aos reais problemas de cada um e aos desabafos que vão intercalando a produtividade e o desânimo geral. 
Eu estava na faculdade e, de certo modo, ainda acreditava nessas teorias bonitas e arrumadinhas ou nesse cunho romântico da gestão de talentos que veio abulir a peste negra do que não soava a moderno
Mas, na prática, as verdadeiras histórias, sucessos, fracassos, lutas, reestruturações, e aprendizagens estavam naquelas pessoas que encontrei e que fizeram a história maior dessa empresa. E a minha também.
Afinal isto é sobre cavacas, pessoas e gratidão!
Obrigada, Sr. João!!!


#aveiro #saogoncalinho #aleluiaceramicas




sexta-feira, dezembro 30, 2016

2017

Chegarás ébrio de brilho e de cor. Mesmo num mundo às avessas onde morrem crianças, joga-se ao poder com bombas e ainda não há cura para o cancro.
Chegarás e brindaremos. Com a champanhe ou o champanhe, nunca sei, mas que é sempre de uma amargura e por isso aproveito para cerrar os olhos e desejar muito. Com tanta fé como se de uma torcida brasileira se tratasse.
Chegarás com os mesmos dias, com os problemas do costume , as mesmas dúvidas e abismos.
E também as mesmas esperanças quando ouvimos uma música que gostamos ou lemos algo e pensamos sobre o que nos faz sonhar. Ou quando alguém nos faz sorrir por dentro e acreditar que há um resto de bondade.
Chegarás com esse peso comparativo de todos os anos que já vivemos, a evocar se morreram mais ou menos artistas que gostamos, se fomos ou não campeões no futebol e no desporto em geral, se houve ogres que ganharam na política e outros que para lá caminham, se aconteceram mais desastres naturais ou se os nossos adoeceram, festejaram ou partiram para sempre.
Chegarás debaixo do escrutínio no amor, nos negócios, na sorte, no dinheiro e na saúde e com as novidades anunciadas de um qualquer vidente e aquela ilusão tão boa de que o amor tudo salva.
Chegarás com a superstição do sete, passaremos os primeiros quinze dias a desejar que tudo seja bom e depois esmorecerá a novidade, o recomeço, volta-se à rotina e ao saudosismo do tempo que voa, que nos põe idade em cima e nos tira a juventude das ideias, dos actos e vontades. E a memória. Essa parte de mim que tanto me trama e que eu gostava que fosse límpida quando falasse de 2017 no passado.


*foto: pôr-do-sol na praia do comboio (Belinho-Esposende), no dia 25/12/2016.




quarta-feira, dezembro 21, 2016

As incoerências do Natal



Estavam no presépio também.

A árvore de Natal era uma extensão do presépio, esse sim, importante porque haveria de ser diferente todos os anos em tamanho e na disposição das figuras. Os pequenos bonecos de barro, uns já partidos e colados dezenas de vezes, seriam dispostos sempre com uma história de fundo. Sim, havia uma espécie de guião na minha cabeça para aquilo que reproduzia sobre o musgo verde e cheio de bichos que trazíamos dos montes.

Era sempre tudo dificultado porque lá estavam os camelos que carregam os reis magos e esses animais sempre os imaginei em desertos áridos. E o meu cenário era o repasto verde e viçoso onde, pelo menos, uma vintena de ovelhas pastavam. E moinhos de vento e casas de aldeia não combinavam com uma cabana de palhinhas que seria, supostamente, abrigo improvisado daquela família que, por via das circunstâncias, adoptara um burro e uma vaca. E o meu boneco do burro mais se parece com um toiro de ganadaria Ribatejana e já não havia história que salvasse o cenário. Nem o homem que supostamente traz uma oferenda ao recém-nascido mas que vem com chapéu de aba e traje de rancho minhoto.

E é então que ainda sobra ela.

De bilha de água na cabeça ainda que não existam poços e riachos pelas redondezas, de saia colorida, a antecipar modas e tendências, coloca-se no centro daquele pequeno mundo onde não existem fronteiras entre ocidente e oriente. É ela que, sempre de braços erguidos representa, a coragem, a determinação e a força bruta do trabalho. É uma mulher que terá subido montes e descido vales, afagou as ovelhas por onde passou e procurou no moinho o seu ponto de orientação. E nunca desistiu, mesmo que tenha caído e a bilha. vá partida. É assim que imagino esta mulher. E chegará sem oferenda porque a água é preciosa para a família mas a sua bondade e ternura não esgotam nunca. E a sabedoria e a inteligência que nunca serão confundidas com arrogância e a sua beleza mesmo quando não usa cremes e batôns.

Passados estes anos, sempre que pego na mulher da bilha, e ainda que se tenha perdido a ilusão para as histórias, penso que não importam os cenários, os intervenientes ou a parte do mundo onde se viva. Espero é que haja sempre um bocadinho daquela mulher livre, de bilha na cabeça, para resgatar para a minha vida.
E que isso possa ser sinónimo de esperança!

domingo, dezembro 18, 2016

Sabores de infância



Isto não é publicidade! 
É reviver os tempos em que 4 "pauzinhos" deste chocolate faziam as delícias de miúdos e graúdos.
A embalagem tinha o mesmo barco em design mas era azul e branca e era a gulodice nas merendas dos trabalhos no campo, juntamente com os biscoitos argola.
Viria o dia em que visitaria as instalações da fábrica e parece que sinto o imenso cheiro a cacau. Podia dar-se o caso de ter enjoado de chocolate, mas não aconteceu.
Aqui há dias a minha mãe tinha esta embalagem em casa. Renovaram-se as memórias mas o sabor, infelizmente não é o mesmo. Ou talvez seja, mas nós é que o apreciamos de forma diferente.




quarta-feira, novembro 16, 2016

A minha praia, sem comboio

Não me lembro da minha praia sem esse ícone de boas-vindas. Uma carruagem de comboio, das antigas, sem que eu saiba precisar pormenores da instalação, mas lá estava ela, adaptada para bar e restaurante. O que é certo é que haviam muitas teorias em torno da vinda daquele vagon para ali. Imagino outras tantas sobre a sua retirada.

Para mim, o que importa é que deu segundo nome à praia, a sua identidade. E se aquela era a praia da “Neves” deixou de o ser. O comboio estava lá.
Os fins de tarde eram ali. Lembro-me bem do dia em que entrei a primeira vez na parte inferior do bar, de lajes lisas e tudo aquilo me parecer absolutamente incrível, moderno e acolhedor. O mesmo pensara quando espreitei à socapa o restaurante, porque nunca lá comi, embora fosse para mim glamorosa aquela ideia de jantar ou almoçar dentro de um comboio sem nunca ter andado em nenhum, aquela data.

Os regressos dos dias longos de praia eram ali mesmo, na esplanada, onde alguém sempre pagava uma saca de cheetos, com um montinho de ketchup ou um gelado.
Na praia, nesses belos dias de maré baixa, jogaram gerações de rapazes. Alguns deles já não estão entre nós.
Podíamos ir de manhã, escolher a melhor duna, deixar as toalhas a marcar o sítio durante a hora de almoço e voltar à tarde, para o lugar abrigado da nortada.
A sério que o vento é frio, a água também e a areia corta-nos a pele e ainda assim insistem em referenciar a praia como praia de nudismo, nessas bulas de fugas e destinos. Vi mais vezes gente de Braga e Guimarães enrolada em mantas do que corajosos nudistas!

Depois, vieram os Verões sem que o comboio abrisse, vieram as mudanças sucessivas de gerência, a decadência do sítio e o comboio ficou ali, junto ao pinhal, continuando a emprestar o nome à praia.
Vieram as mudanças drásticas na nossa costa, a diminuição do areal a olhos vistos como se a cada dia que passa perdêssemos um pouco mais.

Da praia e de identidade também. Esta semana foi o comboio.


(o que resta do local onde estava a carruagem - credits: Rosete Cunha)

sábado, novembro 12, 2016

Todas as vezes que casei

Foi com o Cohen.
Olhar pousado no chão, sob a aba do chapéu, lá estava ele com o Hallelujah, emprestando à cerimónia essa imagem bela de alguém atado a uma cadeira de cozinha.
Não levei nunca um bouquet de cactos, nem nunca servi chá e laranjas mas poderia dançar até ao fim do amor, sempre!

O amor não tem fim e os homens que escrevem sobre ele também não.



terça-feira, novembro 01, 2016

O dia de hoje naquele outro dia

Eu nunca gostei do dia de todos os santos até àquele dia.
Do dia de todos os santos, dos fiéis defuntos, dos finados, de tudo o que se cria à volta de uma tristeza que até faz do Outono mais triste do que na realidade ele é.
Desde criança que este era o dia em que via mais pessoas na freguesia do que em todos os outros dias do ano. Vinham de todos os sítios onde viviam as suas vidas para visitar aqueles que moram sob as paredes altas do cemitério e depositavam flores, muitas flores, as mais caras, as mais vistosas, as mais bonitas, numa procissão de vaidade que desde sempre me enervou.
Não me lembro deste dia sem ser chuvoso, triste, com aquele cheiro dos pavios das velas de papel prata onde fixava o olhar enquanto as rezas se repetiam sem valor nenhum. Era o estar presente sem estar, na verdade.
Mas no dia em que, por questões de trabalho, recebo convite para uma festa de celebração dos mortos na embaixada do México, em Lisboa, abriu-se um novo mundo e eu pensei como poderia ter vivido com tamanha ignorância cultural em matéria de celebração de mortos.
Festa, comida, caveirinhas de açúcar, música e decoração que em nada remetia à tristeza. Até os cravos-xarope, apesar de continuarem fedorentos, ganharam outro encanto.
Nunca fui ao México, tirando todas as vezes que me lembro dessa festa, dos costumes e do nosso dia de celebração dos mortos. Hoje, portanto!



(foto tirada no Parque Cidadela, em Poznan, onde é o cemitério de milhares de militares da I e II Guerra Mundial)